
Envolvido com caminhões desde a infância, Aurélio Batista Félix idealizou as corridas de caminhões no Brasil e levou milhares de pessoas aos autódromos brasileiros para ver de perto a categoria que se transformou na mais importante do automobilismo da América do Sul.
João Geraldo
Com a morte de Aurélio Batista Félix, ocorrida dia 05 de março - aos 49 anos de idade - perdeu-se o idealizador e promotor da categoria mais popular do automobilismo brasileiro e da América do Sul, a F-Truck. Aurélio sentiu-se mal após a primeira etapa da temporada 2008, disputada no autódromo de Guaporé/RS, dia 02 de março. Foi levado às pressas para hospital e submetido a uma cirurgia para desobstrução das coronárias, pois tinha um histórico médico que incluía duas pontes de safena. Porém, o que lhe tirou a vida foi uma hemorragia estomacal causada por tumor no estômago, três dias após ter dado entrada no hospital.
Inicio da categoria: em janeiro de 1994, Aurélio Félix apresentou o primeiro protótipo de caminhão de corrida, no autódromo de Interlagos/SP
Sua vida sempre foi intimamente ligada ao caminhão, desde a infância, ao lado do pai, Reinaldo Batista Félix, carreteiro que ele tinha como ídolo e de quem gostava de ouvir as histórias. O envolvimento com corridas de caminhão começou em 1987, quando esteve ao lado do empresário português, Chico Santos, na realização da I Copa Brasil de Caminhões, no autódromo de Cascavel/PR. Na ocasião, a morte de um dos participantes num capotamento durante a corrida - na qual ele também correu - adiou os planos de fazer competição de caminhão no Brasil. Chico Santos desistiu da idéia, mas Aurélio entendeu que precisava reformular seu plano, pois um truck de corrida tinha de ser seguro e não colocar a vida do piloto em risco.
Em janeiro de 1994 apresentou ao público seu plano de fazer corridas de caminhões no Brasil. O evento aconteceu no autódromo de Interlagos, onde ele apresentou o primeiro protótipo de caminhão de corrida para um grupo de convidados que reunia empresários do setor do transporte rodoviário de cargas e empresas do setor, além da equipe de jornalismo da Revista O Carreteiro. Aurélio conhecia a publicação desde 1970, pois a esta altura de sua vida trabalhava com transporte e era dono de caminhão, além de ter ocupado o cargo de presidente do Sindicato dos Motoristas Autônomos da Baixada Santista. Uma de suas primeiras dificuldades foi homologar a categoria junto à Confederação Brasileira de Automobilismo - CBA. Diante das negativas, a saída encontrada foi, num primeiro momento, realizar provas de apresentação.
Aurélio em 1996, no autódromo de Interlagos/SP
A primeira delas aconteceu em abril de 1995, no autódromo de Cascavel/PR e reuniu apenas cinco caminhões. Além de Aurélio estavam na pista Renato Martins, dono da equipe RM Competições, Vignaldo Fizio, que também corre ainda, e Eduardo Landin Fráguas, o Macarrão, que se transformou num ídolo das torcidas devido sua irreverência e domínio do caminhão e depois abandonou as pistas. Outras três provas aconteceram em Londrina/PR, no mês de julho, já com nove caminhões; em Tarumã/RS, em setembro, com 11 caminhões e Goiânia, em novembro. Em todas as quatro apresentações o público superou 20 mil pessoas. Na ocasião, categoria alguma do automobilismo brasileiro conseguia levar tanta gente ao autódromo numa só competição.
Em 1996, Aurélio conseguiu ter a esperada homologação da CBA e organizou o 1o Campeonato Brasileiro de F-Truck, regida por regulamentos técnico e desportivo. A abertura aconteceu em Guaporé, dia 28 de abril, quatro dias após ele completar 38 anos de idade.
Provas de apresentação: durante o ano de 1995, foram realizadas quatro provas de apresentação. Uma delas aconteceu no autódromo de Tarumã
Nos anos seguintes, a F-Truck experimentou um ritmo de crescimento impressionante. As equipes evoluíram e buscaram soluções para os problemas que foram surgindo. Aurélio também não parou de trabalhar para melhorar cada vez mais o evento. Suas grandes preocupações eram a segurança dos pilotos e a acomodação do público, devido ao respeito pelas pessoas que saem de suas casas para irem ao autódromo assistir as corridas. Isso o levou a promover melhorias em vários autódromos, pois com o automobilismo há anos em baixa, os circuitos encontravam-se um pouco abandonados.
Dentro da estrutura do evento, exigiu que as equipes se organizassem, mantivessem seus mecânicos uniformizados e os boxes limpos e arrumados. Conduziu a categoria do modo que achava que devia ser, para mantê-la em ordem e não perder o controle, pois sabia que isso a desestruturaria. Com isso conquistou o respeito de todos os profissionais envolvidos na categoria, desde a pessoa que trabalha na portaria até os pilotos, chefes de equipe e patrocinadores.
Primeiro campeonato: em 1996, já homologada pela CBA, a F-Truck faz o primeiro campeonato e corre uma das etapas no autódromo de Interlagos/SP
Durante sua vida realizou 108 corridas da F-Truck, incluindo as quatro provas de apresentação em 1995, duas extras no campeonato de 1997, e outras duas provas extras em 1998 e 1999, respectivamente. Conduzia a categoria do seu próprio modo para manter as coisas funcionando conforme entendia que devia ser e era comum se emocionar ao final de cada etapa com a dimensão e os rumos tomados pela categoria que criara. Não imaginava que fosse crescer tanto em tão pouco tempo.
Categoria consolidada: Treze anos depois, em Guaporé/RS, a última corrida organizada por Aurélio Félix. Por coincidência no mesmo autódromo onde a F-Truck fez a primeira prova do primeiro campeonato.
Gostava de viajar por terra para os autódromos, como um verdadeiro motorista de caminhão, que sempre foi. Era um perfeccionista em tudo que fazia, mas gostava de coisas simples e evitava aviões, embora tivesse paixão por carros esportivos, motos e helicópteros. Aliás, depois de muita espera conseguiu comprar sua máquina voadora, cuja apresentação aconteceu na etapa de abertura do campeonato, em Guaporé. Porém, ele nem conseguiu usá-la. Pelo menos consciente, porque sua primeira viagem foi entre o autódromo e o hospital, quando se sentiu mal.Foi também a última. Aurélio deixou esposa e três filhos.